As
belezas, o clima, o turismo e as águas da Serra Grande, deságuam na
Bica do Ipu, na zona norte do Ceará. Quer dizer: desaguavam. A forma
simples de contar sua história, mostra um povo angustiado com
a administração municipal, um desastre tão grande que fez até a bica
secar, dizem lá.
Chico Diogo, senhorzinho morador de Ingazeira, distrito do Ipu, sorri
quando a reportagem pergunta onde fica a escola que o Governo mandou
construir na região. – O senhor dobra as direita e logo adiante o senhor
vê. Na verdade, o que se vê ao chegar é uma construção inacabada, sendo
destruída pelo tempo e pelo abandono, e que custaria perto de R$ 900
mil. Seriam seis salas de aulas e demais equipamentos. Obra iniciada, em
2010, foi abandonada quando o dinheiro sumiu. De pouco adiantaram as
denúncias ao TCU, TCM e demais órgãos fiscalizadores. O dinheiro havia
sumido e os 180 dias de prazo para sua conclusão, a contar do dia 17 de
março de 2010, data na placa para início da construção, está lá até
hoje, como a desafiar as autoridades e fiscais. O mato tomando conta, as
pessoas levando tijolos pra construir seus puxadinhos.
Fátima Cara Suja faz o mesmo ar de deboche quando se pergunta onde
fica a creche que o governo, também, mandou dinheiro para a Prefeitura
licitar e construir. Com o queixo aponta para o muro na frente da sua
casa; é isso aí. Na verdade, a placa do Governo Federal aponta que ali
seria uma unidade do Pró-Infância com obras iniciadas em 25 de fevereiro
de 2012, 240 dias para ser concluída e abandonada pelo mesmo motivo da
escola da Ingazeira: A creche do bairro da Mina empacou porque o
dinheiro sumiu todinho e o mato também tomou conta do que seria um
benefício para crianças pobres de Ipu.
Bonita e imponente, a velha estação da Rede de Viação Cearense, a
ferrovia que passava pelo Ipu, recebeu uma verba superior de R$ 600 mil
para ser restaurada. Uma pintura com tinta d’água, uma cobertura com
telhas de zinco, descaracterizando o vetusto imóvel, teve dois terços do
dinheiro desviado, apesar das notas fiscais que, analisadas, mostram
que é impossível ter sido gasto ali a quantia enviada pelo Governo
Federal para assegurar a história do monumento e guardar a memória do
passado ipuense.
ATRASO DE SALÁRIOS
Hoje, o funcionalismo público do Ipu, depois de
uma vitória inquestionável na Justiça, está com um atraso de três meses
em seus salários. Servidores concursados, antes da chegada do prefeito
Sávio Pontes à Prefeitura do Ipu, trabalhando, foram demitidos no grito
pelo gestor. Foram pra Justiça e, passados quase três anos, tiveram seus
direitos reconhecidos e voltaram ao trabalho. Foi uma luta judicial que
gerou milhares de reais de prejuízo ao povo do Ipu, uma vez que
atrasados, multas e outros prejuízos dos funcionários terão que ser
pagos. Mesmo assim de nada valeu: ganharam mas não levaram. Foram
reempossados, mas não recebem salários desde então.
Há, entretanto, casos cebeludíssimos sob a responsabilidade do
prefeito Sávio Pontes que saiu da Prefeitura, teve prisão decretada, foi
solto, voltou ao poder municipal por conta de um ministro do STJ, que
em quatro laudas jogou por terra 200 páginas de um processo relatado por
um desembargador no Ceará.
Os relatórios do Tribunal de Contas dos Municípios, um calhamaço de
mais de trezentas páginas, detalham cerca de 80 (oitenta) arrumações do
Prefeito, agrupadas no Processo 2010.IPI.TCE.07546/11, uma Tomada de
Contas Especial, levantamento feito por técnicos sérios, competentes e
responsáveis que desancam a administração de Sávio Pontes com achados
absurdos da 7ª.Inspetoria da Diretoria de Fiscalização, órgão técnico do
TCM, distante do universo político que gira no Tribunal de Contas.
Milhões de reais caíram num sumidouro em Ipu e deixaram dezenas de obras por fazer e/ou inacabadas com o sumiço das verbas
encaminhadas para a gestão municipal cuidar e realizar os serviços
contratados. Um convênio com a Secretaria das Cidades do Governo do
Estado, ao tempo em que era secretário o ex-presidente do BNB, Jurandir
Vieira Santiago, no valor global de R$7.140.000,00 virou um calo de todo
tamanho. Como silenciaram sobre o fato, o calo que ainda não virou calo
seco voltou a ser questionado na própria Secretaria das Cidades do
Governo do Ceará.
COOPERAÇÃO FINANCEIRA
O convênio estabelece a cooperação financeira entre o Estado e a
Prefeitura para a construção de 1.020 casas, a que chamam de unidades
habitacionais, destinado à melhoria na qualidade de vida da população,
como está escrito na Cláusula Terceira do Objeto. Com um GPS e
informações as mais desencontradas possíveis e inimagináveis, a
reportagem conseguiu encontrar sete casebres espalhados pelo município,
notadamente na sede. Todos inconclusas, estão sendo trabalhadas por seus
felizardos proprietários para que possam morar num lugar digno. Seu
Antônio Ribeiro da Silva, residente da inacaba choupana do número 1593,
da Rua 7 de Setembro é um deles. Morrendo de feliz ao lado da mulher
mostra a porta de tábuas de quinta categoria e os dez sacos de cimento
que recebeu para fazer o piso queimado por conta própria. A casa de seu
Antonio está no piso morto, no matacoado.
Perto dele outros dois moradores conseguiram juntar um dinheirinho e
terminar o benefício que deveria ser estendido a 1020 famílias do Ipu,
largadas à própria sorte. Não há nenhuma outra notícia, mesmo em plena
campanha política, onde os generosos compram votos por pequenas
benfeitorias, coisa que todo e qualquer promotor de Justiça ou juiz
Eleitoral sabe, que aponte para a solução do gravíssimo problema do
sumiço dos R$7.140 milhões, que nem a Secretaria das Cidades sabe onde
andam. O convênio, também, em poder da reportagem jamais será honrado,
dizem especialistas em sumiço de dinheiro público.
Um outro conjunto habitacional, este com 100 casas populares,
dinheiro proveniente do Governo Federal foi igualmente abandonado.
Quando as denúncias do sumiço do dinheiro estouraram, no Tribunal de
Contas da União, a Prefeitura de Sávio Pontes correu e construiu 30.
Algumas, como a de Alexandra Ferreira da Silva, que está no piso de
areia, sem banheiro ou portas internas sequer foram entregues aos
inscritos no programa conveniado. Paredes levantadas têm o mato tomando
conta numa fileira inteira do que seriam casas conjugadas para pessoas
de baixa renda do Ipu. Ninguém dá notícia de onde foi parar o dinheiro
para a conclusão das obras.
MAIS GRAVE
O caso mais grave, porém, além do sumiço dos R$ 7.140 milhões do
convênio com o Governo do Estado, que foi enganado por Sávio Pontes, é a
perseguição, fechamento e tentativa de garrotear a vida do melhor
hospital da cidade, o Dr. Francisco, uma casa de misericórdia que
sobrevevia com os repasses do SUS, mas a Prefeitura não só cortou a
verba do SUS como as verbas que a Secretaria de Saúde do Estado manda. A
incrível história terminou por uma bronca da Justiça em quem mandou que
o hospital, de uma entidade sem fins lucrativos e formada há 68 anos,
fosse passado para a propriedade da Prefeitura, feito que um atento
desembargador anulou e fez o rio voltar a seu leito normal até que se
julgue o mérito. Uma história a ser contada pela dramaticidade que
envolve a loucura que invadiu Ipu e fez até a bica secar.
Fonte: O Estado CE