Nas eleições de 2010, o candidato Marcos Cals, segundo mais
votado ao Governo, ainda gastou R$ 12 milhões, mas obteve menos de 20%
dos votos
Foto: José LEOMAR
O candidato a governador do Ceará, para emplacar uma postulação
competitiva nas eleições deste ano, deverá reunir recursos de pelo menos
R$ 40 milhões, considerando a prestação de contas da última campanha no
Estado, o aumento de inflação no período e prováveis despesas não
declaradas, ainda recorrentes no período eleitoral. Para pleitear o
Senado Federal, os custos podem se aproximar dos R$ 10 milhões.
Faltando 50 dias para a oficialização das candidaturas, alguns partidos
afirmam que o maior financiador dos nomes que disputarão cargos
majoritários - Governo do Estado e Senado - será o diretório nacional.
Outros alegam que farão uma campanha modesta e não sabem quem pagará a
conta.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o governador Cid Gomes
(PROS) declarou despesas de quase R$ 29 milhões em 2010, quando se
reelegeu. Corrigido pela inflação e contando com prováveis gastos não
declarados, a conta pode chegar a R$ 40 milhões. Já Marcos Cals - que
disputava pelo PSDB, mas hoje é filiado ao Solidariedade - alega ter
desembolsado R$ 12 milhões. Lúcio Alcântara (PR), que também postulava a
cadeira do Executivo, informou gastos de R$ 3 milhões. Os três
candidatos a governador do Ceará mais votados gastaram, juntos,
oficialmente R$ 44 milhões.
Ocultas
Em Fortaleza, na eleição para prefeito de 2012, os valores não foram
tímidos. O candidato mais votado, Roberto Cláudio (PROS), encaminhou ao
TSE prestação de contas de R$ 18,5 milhões, sendo R$ 10 milhões bancados
pelo diretório estadual do antigo partido do prefeito, o PSB. Essas
verbas são chamadas de doações ocultas, porque podem conter repasses
indiretos de pessoas físicas e jurídicas ao postulante, intermediados
pelas agremiações.
A campanha do segundo postulante a receber mais votos na Capital
cearense, o petista Elmano de Freitas, foi orçada em pouco mais de R$ 9
milhões. Parte considerável dos recursos, quase R$ 7 milhões, foi
financiada pelo diretório nacional do PT.
O senador Eunício Oliveira, pré-candidato do PMDB ao Governo do Estado
nas eleições de outubro deste ano, afirma que a campanha majoritária
deve ser custeada pela representação nacional da sigla. "Como o PMDB
nacional entendeu que alguns estados eram prioritários e incluiu o Ceará
como prioridade, há um compromisso partidário de dar atenção especial
para ajudar a campanha", justifica.
O peemedebista informa que a legenda não detalhou as cifras a serem
doadas, mas acrescenta que tentará captar recursos. "Ainda não sei
(quanto o partido doará). Obviamente que se pode verificar que na
campanha para governador passada houve captação. Isso só se define
depois da candidatura efetivada", pontua.
O presidente estadual do PR, Lúcio Alcântara, diz que a legenda não
planejou as despesas da possível candidatura de Roberto Pessoa,
ex-prefeito de Maracanaú e ex-deputado estadual e federal, ao Executivo
cearense. "Isso vai ter que ser de doações, não sei exatamente. Tem que
fazer um orçamento mínimo com gastos de programa de TV, marketing,
publicidade. Não discutimos nada", admite. O presidente do PR acrescenta
que a verba inicial deve ser bancada por Roberto Pessoa, mas adianta
que o valor é baixo.
Comedidos
Questionado se o PR tem estrutura para lançar candidatura competitiva,
Lúcio Alcântara pondera que os valores devem ser comedidos. "Será uma
campanha muito modesta, mas tem que ter transporte, televisão,
marketing, som na rua. Não tenho ideia (do custo)", frisa. "Nós não
temos caixa, não temos dinheiro. Vamos ver se o diretório nacional
libera algo. Não há luz sobre isso nem pedimos nada ainda", completa.
Conquistar uma vaga no Senado Federal também requer recursos fartos.
Eunício Oliveira declara gastos de R$ 7,7 milhões na campanha política
de 2010, o petista José Pimentel informa custos de R$ 4,9 milhões,
enquanto Tasso Jereissati desembolsou pelo menos R$ 6,9 milhões durante o
pleito.
O presidente estadual do PT, Francisco de Assis Diniz, relata que o
diretório nacional do partido deve financiar a candidatura do deputado
José Guimarães ao Senado. "Como é uma estratégia do partido, temos a
expectativa de ter o nacional como principal aporte de recursos",
explica.
O petista diz que a sigla está preparada para a campanha ao Senado. "O
partido está mais do que preparado, está afiado, está com o pé na
estrada", garante o dirigente. E acrescenta: "A máquina partidária é
fundamental, a militância é essencial. Esse é o nosso diferencial".
Dinheiro atua como cabo eleitoral para definir pleito
Especialistas explicam que o poder econômico tem influência direta nas
eleições. "Há formação de marketing, assessoria jurídica, contratação de
staff, empreendimentos que envolvem recursos. Para alguns candidatos, é
difícil de alcançar", alega a professora de ciência política Carla
Michele Quaresma, do Centro Universitário Estácio do Ceará. "As empresas
escolhem candidatos competitivos para se favorecer dos mandatos. O
fator financeiro às vezes é decisivo no resultado das eleições",
reforça.
Michele atenta ainda para os recursos ilícitos. "Persistem práticas de
compra de votos e uso indevido do poder financeiro. No Brasil, se
utiliza a expressão de que eleição se ganha de véspera, porque se compra
um dia antes da votação", aponta, avaliando que as máquinas públicas,
como prefeituras e Governo do Estado, dão suporte para que candidaturas
deslanchem.
A cientista política Marinina Benevides, da Universidade de Fortaleza,
diz que o peso do capital nas eleições não é novidade no Brasil e
pondera que, hoje, o impacto da máquinas pública pode ser limitado. "A
utilização da máquina administrativa e outras ações fraudulentas ficam
mais complexas e as denúncias podem contribuir para operar o efeito
inverso: a rejeição do eleitor aos atores envolvidos nas improbidades
administrativas".
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