Uma homenagem do JORNAL O POVO, A maior mulher que Catarina conheceu. Uma MÃE que dedicou toda a sua vida a cuidar de outras mães.
Era dela enterrar os umbigos nos pés das porteiras ou mandar guardá-los em caixinhas de fósforos
Em casa onde Mãe Dosa acudia, dificilmente morria mulher de parto.
Nem o parido de abafo ou cordão dado o nó de Santo Antônio. E tiveram
vários vindos pra fora, depois de aperreios, que foram batizados de
Antônio ou Antônia. Roxinhos, quase sem fôlego, enrolados no pescoço...
Toinho
ou Toinha! Precaução pra que lá na frente, por fraqueza do juízo ou
desventura amarga por causa de qualquer besteira, o padrinho Santo
Antônio impedisse a vida morrida feito um Judas.
Mãe Dosa, que
já se foi do corpo dos Inhamuns, recebeu poder pra trazer ao mundo quem
veio por Catarina. Um cafundó bem pra dentro do Ceará e ainda, naqueles
ventos mornos e frios de lonjura, freguesia de Saboeiro. Anos 50, 60,
70...
Do tempo da travessia em cascos de jumento, risco de
tropicar no val dos rios ou ter cuidado pra não escorregar nas passagens
molhadas. Ou dos dias de secas, sem água fervida pra barrar o sangueiro
das intimidades das prenhas... Cachorro pé-duro latindo à cerca,
madrugadas de pressa, lua e sapos serenando... E, quase toda semana, um
berro de quem era chegante.
Era dela enterrar os umbigos
nos pés das porteiras ou mandar guardá-los em caixinhas de fósforos,
enrolados em algodãozinho. Voltariam os que partissem em viagens.
Volveriam nem que fosse pra tomar a última benção dos pais que já
estavam se indo e mandaram recado derradeiro. Ou quando almas fossem,
não esquecessem o caminho de casa. Assim renascem as lembranças,
cortadas um dia no pé da barriga.
Recebi de um leitor, um
livro que considero um afago de filho pra mãe torta. Não há literatura
nem pretensões. De tanto fazer nascer, de auxiliar na travessia dos que
foram escolhidos pra rebentar nos sertões, de ser divina em fazer
pontes, fez-se madrinha de muitos a espiritualizada Pedrina Nogueira
Sobrinha: a Mãe Dosa.
Estão lá, pelo menos 707 parideiras que
se valeram da mão aparadora da senhorinha. Das entranhas de dona Luíza
Pereira da Silva vieram 23 crias. De Josefa Alves da Silva rebentaram
14. Maria Neuza de Oliveira Barbosa pariu uma récua de onze. Ana
Ferreira de Souza, Maria Martins de Oliveira e Letícia Pedrosa Mendonça
se acudiram de Mãe Dosa por dez vezes, cada uma. Nove pra Donatildes
Fernandes de Oliveira e a mesma penca pra Francicleide Leitão Mendonça e
dona Eva (Nogueira de Mendonça)...
De oito filhos paridos na
bacia da paciência de Mãe Dosa estão anotadas: Lenita Jusifina do
Nascimento, Luiza de Freitas Pedrosa, Maria Duarte Feitosa, Maria
Edizete Rocha Lima, Maria Ivanilda Pedrosa Mendonça, Alecina Domingues
Furtado, Antonia Gomes Martins, Antonia Julieta de Souza, Carmina
Domingues Nogueira, Dominga Alves Evangelista, Expedita Batista de
Lima... De sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um há um magote.
E
quem explica a graça de alguns no receber? No acolhimento de quem chega
ou volta para qualquer canto desse mundinho pequeno? Hoje, Mãe Dosa é
nome de rua em Catarina e a casa onde se dá a luz por lá, também leva a
graça da parteira.
(O livro Memórias de Uma Vida chegou pra
mim pelas mãos do jornalista Landry Pedrosa. Ele é um dos poucos, em
Catarina, que não nasceu por Mãe Dosa. Mas quatro de seus irmãos
rebentaram de dona Antonia Martins Pedrosa com o auxílio dela).

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